Sobre a intolerância com os nordestinos e os indícios de fascismo

Um breve esclarecimento: esse texto é de uma professora do departamento do meu curso (Serviço Social) na UFPI. Antes de alguma crítica espero que todos leiam e reflitam. Deixo-os agora com as palavras da Prof(a). Valéria Silva.

Tenho acompanhado vários posts denunciando reações agressivas das mais diversas dos eleitores e lideranças da candidatura Aécio Neves.

Talvez seja hora de mais uma vez repetirmos que o Nordeste e seu povo vêm, desde sempre, sendo vilipendiados por um modelo econômico que prioriza o sul e o sudeste do Brasil, especialmente seus segmentos de elite. Nos últimos 12 anos o governo federal começou um movimento de mudança de nossa dependência em relação aos “mais desenvolvidos” do nosso Brasil. Não é à toa que as migrações nordestinas diminuíram, a fome arrefeceu, o emprego cresceu, a renda per capita aumentou por aqui, a escolaridade também, dentre outros. Dentro desse quadro, penso que é um equívoco, ou má fé, dizer que o voto do nordestino é de cabresto, é dependente, é ignorante. Não. É um voto de reconhecimento de qual é a proposta que atende melhor às suas necessidades. (Falo aqui dos mais pobres do Nordeste, posto que elite -no Brasil- é elite em qualquer estado federativo; comporta-se de modo similar, em que pese algumas defenestrações táticas).
Por este prisma, acredito que essa desqualificação promovida acerca do voto nordestino, na verdade, revela – de novo – o preconceito exercitado cotidianamente sobre nós, o povo do Nordeste. Por que o voto de sulista e sudestino no Aécio seria mais legítimo do que os votos nordestinos em Dilma? Seria a candidatura do Aécio a plena declaração da verdade programática? Não, pois se assim afirmamos, estamos tratando de fundamentalismo, o que não combina com democracia, mesmo esta de espécie capenga que vivemos. Se assim fosse, poderíamos dispensar a eleição… Cada programa tem de ser aceito como diferentes modos de pensar o Brasil e seus problemas. Como vemos, a questão não é meramente político-eleitoral, mas político-cultural. Em vez de concluir que os votos do Nordeste são dependentes, talvez estejamos – a partir daqui – obrigados a conviver com a realidade de que o Nordeste não é mais um pobre diabo, um coitadinho. Tem opinião e escolhe, sim, quem melhor atende seus propósitos. Para alguns, talvez esse fato seja um absurdo. Na mesma linha de quão insuportável é pobre andar de avião, talvez seja um absurdo pobre votar em pé de igualdade e eleger aqueles que melhor os representam.
Bem, do ponto de vista da disputa política, a frustração das elites é compreensível. Perderam a eleição. Seguramente, seu projeto perde algo, assim como temos passado a nossa inteira existência perdendo para o lado mais ‘nobre’ do Brasil. Mas é preciso fazer o exercício de convivência com tal realidade da alternância de hegemonias internas… efetivamente, não vivemos a reboque do sul e sudeste! Essa experiência, espero, não tem volta. O complicado é se as elites perderem de vez essa clareza e permanecerem apelando para a proliferação da ignorância política, a qual alimentará a intolerância, o ódio, o estigma contra nordestinos. O nome disso, sabemos, é fascismo. As consequências? Também conhecemos. E, acredito, não é isso que queremos pro nosso país.

Valéria Silva

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